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lamentando e se queixando

ela escreve: você vai
se lamentar e se queixar
em seus poemas
sobre como eu trepei
com 2 caras na semana passada.
eu te conheço.
ela escreve para me
dizer que meu sensor
estava certo -
ela recém tinha trepado
com um terceiro cara
mas ela sabe que não
quero saber com quem, nem por que
nem como. ela encerra sua
carta, "com amor".

ratos e baratas
triunfaram novamente.
aí vem ele correndo
com uma lesma em sua
boca, entoando
velhas canções de amor.
feche as janelas
lamente
feche as portas
queixe-se.


O amor é um cão dos diabos, 2007. (pg. 44)

462-0614

agora recebo muitas chamadas de telefone
todas iguais
"é Charles Bukowski,
o escritor?"
"sim", eu lhes respondo.
e eles dizem que entendem minha
escrita,
alguns deles são escritores
ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e
horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite...
querem alguém com quem possam
conversar,
não podem acreditar
que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
não podem acreditar
que agora mesmo
me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas
e dizendo
"Jesus Jesus Jesus,
de novo não!"
eles não podem acreditar
que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas.
e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o
jogo.

não escrevo a partir da sabedoria.
quando o telefone toca
eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma 
dessas coisas.

é por isso que meu nome está na
lista.


O amor é um cão dos diabos, 2007. (pg. 108-109)

a garota no banco da parada de ônibus

eu a vi quando eu estava na pista da esquerda
indo a leste pela Sunset
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.

isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.

memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.

os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.

era um ônibus branco e feio
e a levou embora.

dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.

sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?

ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.


O amor é um cão dos diabos, 2007.  (pg. 216 -217)

vulgaridade

ok, aqui eu estou limpando minha bunda e pensando sobre o que há de errado com o 
mundo
mas eu acho que muito do que me incomoda é que eu considero
toda mulher com quem vivi como insana: eu sabia disso para começar
porque elas nunca teriam tentado viver comigo
caso contrário,
por exemplo, linda enviou recentemente um dos meus livros para a mãe dela
e sua mãe ficou ao telefone com ela e disse:
"por que ele não cresce? por que ele continua escrevendo sobre essas
coisas !: vômito e sexo e porcaria e todas aquelas
coisas FEIAS? "
e a pobre linda tentou defender as minhas obras,
ela é uma menina doce e querida,
e elas gritavam uma para outra,
a longa distância.
meu pai costumava gritar a mesma coisa para mim sobre a minha
escrita
mas então me ajude
quando eu escrevo eu não tenho nenhuma ideia que eu estou escrevendo sobre
merda e vômito e foda e assim por diante.
eu não sei,
eu pensei que eu estava escrevendo sobre
circunstância,
uma circunstância que  permitimos destruir a nós
e nós nos tornamos
aparições, e tudo sobre nós
também, até mesmo nossos animais
nossas ruas
nossas casas
nossas transas
então agora eu estou limpando minha bunda
e agora eu estou limpando a
sua.
você não pode detonar o que já foi
detonado, sim.
ainda assim, eu acho que eu vou começar a
levantar  pesos
de novo,
eu tenho 63 anos, mas eu me sinto mais jovem do que a
primavera
sou eu,
mas eu sou sincero quando digo que
quando eu ouço as pessoas dizerem que eu escrevo
sobre  coisas vulgares
eu acho que eles podem estar certos
mas eu não tenho certeza
eu gostaria que a mãe de linda pudesse ter conhecido
meu pai,
eles poderiam ter ficado juntos
nunca cagar, ​​vomitar, amaldiçoar ou
foder,
eles teriam sido totalmente sadios
totalmente
justos.
merda,
sim.

e uma vez que este não é um lugar para
terminar um poema
deixe-me dizer
que pelo meu bem e pelo
seu
vamos ser felizes
de qualquer maneira
pela
merda
mijo
vômito
foda
merda merda merda merda merda
e que os leitores
comprem os livros
não os críticos
que  obtém
de graça
até o
cu cu cu cu cu

cu.

Traduzido do original: http://bukowski.net/manuscripts/displaymanuscript.php?show=poem1984-02-29-vulgarity.jpg&workid=4448

agnóstico

li outro dia
que um homem queria exorcizar o diabo
de seus dois filhos
então ele amarrou-os a um forno de chão e
torrou eles até a morte .
 
suponho que para acreditar no diabo
você tem que acreditar em Deus
primeiro.
 
eu fui ensinado a capitalizar "Deus"
e alguns diriam
que desde que eu faço  isso
é prova suficiente .
 
enquanto isso, eu uso o meu forno para me manter
aquecido
e eu fico de fora de
Argumentos.

Traduzido do Original: http://bukowski.net/manuscripts/displaymanuscript.php?show=poem1982-01-26-agnostic.jpg&workid=494

Chopin Bukowski

este é meu piano.

o telefone toca e as pessoas perguntam,

o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?

e eu digo,

estou ao piano.

o quê?


desligo.


as pessoas precisam de mim. eu as

completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.

mas se as vejo muito seguido

eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.

meu piano me diz coisas em

troca.

às vezes as coisas estão

confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.


O Amor é um Cão dos Diabos  (2007, pg. 98)

ignis fatuus

a única solidão é
sono ou morte
nós não éramos inteligentes o bastante
gentis com os outros e cruéis para si mesmo
quando pedimos a nós mesmos por misericórdia
e isso foi negado

a mais sagrada privacidade permanece
nos esperando
e tudo que foi
incompreendido ou abandonado
se reunirá

deixe meu fracasso ser sua sorte
isso que foi um quebrado
e descuidado
erro

que seja conhecido
que saber sua própria morte
é morrer duas vezes
uma vez realmente
e então, quase nada

que seja conhecido
que não há nada tão feio
em tudo que é tangente
como a besta humana
um truque definido contra o sangue de sua alma

que seja conhecido
que a solidão é a única
misericórdia
e a única
amante

que seja conhecido
que um homem não precisa ser Cristo
para ser crucificado

que seja conhecido
que um homem pode ser
crucificado
a cada dia
a cada momento
a cada respiração
de sono e vigília
e então ser atormentado novamente

que seja conhecido
que um homem pode morrer
e morrer
e morrer
e morrer
e ainda sentir a dor
e saber que está morto
e ainda sentir a dor
e saber que não há nada que ele possa fazer
e ainda  sentir
a dor
que seja conhecido

que seja conhecido
que os templos não são nada
e os sinos não são nada
e a fama não é nada
e a vitória não é nada
e o sexo não é nada
e que a solidão traz loucura
e a multidão traz loucura
e bebem  e comem o corpo
como um tigre
que não há nenhuma voz para falar com
nenhum ouvido para ouvir

que seja conhecido
que haverá outros homens como eu
levantados  para a boca dos leões
queimados  por falsos amores
enganados por gentileza
alvejados pelo intelecto
tontos por ramalhete
sacrificados para o lucro
utilizados como mão de obra barata
e estes serão os mais gentis dos acontecimentos
em comparação com o que vai entrar no olho
e na orelha
e no cérebro
e escoar para as entranhas para começar seu
trabalho de morte
eu tenho pena que todos esses meus irmãos
que vão me seguir nos séculos
Incapazes de amar, porque não há nada para amar
Incapazes de matar, porque não há nada vivo
Para sempre pendurados e
sangrando e tontos
Pela besta
humana
as paredes
os jardins
o sol
as flores
os beijos
as bandeiras
os mares
os animais
a comida
os licores
as pinturas
as sinfonias
tudo inutilidade

que seja conhecido
que a maioria dos homens
adoram quando podem ver
e eles vêem uns aos outros
e eles adoram isso
porque eles vêem muito pouco

que seja conhecido
que eu sou amargo
e condenado
e cansado
e inútil

que seja conhecido
que quando a esperança final se vai
lá permanece, mas olhando para a dança
e observando a relação fraca
dos idiotas
com muito pouco anotações

que seja conhecido
que eu estou morto
mas não existe raiva

que seja conhecido
que a maioria dos homens estão mortos
muitos anos antes do enterro

que seja conhecido
que muitos homens morrem na infância
que muitos homens nascem mortos
embora as suas partes se movam
e fazem som
e crescem
e avançam
no comportamento adulto
e fazem  as coisas da
civilização

Que seja conhecido
que estes homens nunca existiram
e que seus funerais
foram  enormes farsas
e também as lágrimas mortas
para o já morto

que seja conhecido
que os próprios vermes
estavam mais perto da verdade
na medida em que
não
choram

que seja  conhecido
que o nascimento não é santo
que a morte não é santa
que a vida não é santa

que seja conhecido
que eu tenho sangrado sem coroas
que  eu vou sangrar em um momento
que eu vou sangrar para sempre
vermelho
vermelho
vermelho
e os falcões vão dançar
dentro dos meus ossos
e regozijar

que seja conhecido
que eu não morra pelos pecados do homem
mas que eu morra pelo o quê o homem é
e para o que eu quase fui
eles- muito pouco de qualquer coisa
em mim mesmo levantou o suficiente
para ver o horror
o adoecer
e enlouquecer
e murchar

não tome como pessoal
o que eu digo sobre a vida
completamente
ou o homem
completamente
a não ser que
em outro plano
você se considera
um defensor da vida e do homem
o que é apenas uma outra fraqueza natural das espécies
como um rato guardando seu ninho
e para o qual
eu não posso te culpar totalmente

a única solidão é a morte
mas não esta morte
não esta morte
não
esta

morte.


 https://www.youtube.com/watch?v=EpnHMH1Crhg

sorte

o que está mal a respeito disso
tudo
é ver as pessoas
bebendo café e
esperando. gostaria de
embebê-los todos
na sorte. eles precisam 
disso. precisam bem
mais do que eu.

sento nos cafés
e os vejo a
esperar. não creio
que haja muito mais
a fazer. as moscas
vão pra lá e pra cá
nos vidros das janelas
e bebemos nosso
café e fingimos
não olhar uns
para os outros.
espero junto com eles.
entre o movimento
das moscas
as pessoas vagueiam.


O amor é um cão dos diabos (2007, pg. 119).

provaremos as ilhas e o mar

sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios

canções como as que nenhuma rádio
toca

toda tristeza, escarnecendo
em correnteza.

O amor é um cão dos diabos. (2007, pg. 74).

castanho-claro

um olhar castanho-claro

esse estúpido, vazio e maravilhoso
olhar castanho-claro.

darei um jeito
nele.

você não precisa mais
me enganar
com seus truques
de Cleópatra
de cinema

já se deu conta
de que se eu fosse uma calculadora
eu poderia entrar em pane
registrando
as infinitas vezes que você usou
esse olhar castanho-claro?

não que não seja o que há de melhor
esse seu olhar castanho-claro.

algum dia um filho-da-puta louco
irá matá-la

e então você gritará meu nome
e finalmente entenderá
o que já devia ter entendido

há muito
tempo.


O amor é um cão dos diabos (2007, pág. 171).

estar sozinho

quando você pensa em quantas vezes
tudo dá errado
você começa a olhar para as paredes
e permanece lá dentro
porque as ruas são o
mesmo filme antigo
e todos  os heróis acabam como
o velho herói do filme:
bunda gorda, cara gorda e o cérebro
de um lagarto.

não é de admirar que
um homem sábio irá
escalar uma montanha de 10.000 pés
e sentar-se lá esperando
e vivendo de baga de arbusto
em vez de apostar em duas covinhas dos joelhos
que certamente não vão durar a vida inteira
e 2  em cada 3 vezes
não sobreviverá por uma noite.

montanhas são difíceis de escalar.
as paredes são suas amigas.
conheça suas paredes.

o que eles nos deram lá fora
é algo que mesmo as crianças
se cansaram.

Permaneça com suas paredes.
elas são o amor mais verdadeiro.

construa onde ninguém constrói.
é o último caminho que resta.

http://bukowski.net/manuscripts/displaymanuscript.php?show=poem1976-09-05-be_alone.jpg&workid=676

cometi um erro

me estiquei até a última prateleira do armário
e puxei de lá uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei "são suas?"

e ela olhou e disse,
"não, devem ser da cadela".

depois disso ela se foi e não a vi
desde então. não está na sua casa.
continuo passando por lá, enfiando bilhetes
debaixo da porta. volto ali e os bilhetes
continuam intocados. arranco a cruz de Malta
do retrovisor do meu carro e a amarro
com um cadarço à sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
ao retornar na noite seguinte tudo
continua ali.

continuo rondando as ruas em busca
daquele encouraçado cor-de-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo das dobradiças estropiadas.

circulo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.

um homem velho e confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte foi 
parar.


O amor é um cão dos diabos (2007, pag. 195).

olá, como você está?

esse medo de ser o que eles são:
mortos.

pelo menos eles não estão na rua, eles
têm o cuidado de ficar dentro de casa, aqueles
malucos que se sentam sozinhos na frente de suas tvs,
suas vidas cheias de enlatados, riso mutilado.

seu bairro ideal
de carros estacionados
de pequenos gramados
de pequenas casas
as pequenas portas que abrem e fecham
quando seus parentes os visitam
durante as férias
as portas se fechando
atrás do moribundo que morre tão devagar
atrás do morto que ainda está vivo
em seu tranquilo bairro de classe média
de ruas sinuosas
de agonia
de confusão
de horror
de medo
de ignorância.

um cão parado atrás de uma cerca.

um homem silencioso na janela.

notificação

cidadãos do mundo
eu renuncio a vocês.

eu renunciei
há muito tempo.
mas isto é uma notificação
formal
eu contra
vocês
uma ordem de
restrição.

fodam-se
ressequem
desapareçam.

não venham até
minha porta
com pizza
bucetas
ou ofertas de
paz.

é tarde demais.

a música
congelou no
ar
castrada pela
ausência de sua
presença.

a escapada

escapar de uma viúva negra
é um milagre tão grande quanto a própria arte.
que rede ela pode tecer
enquanto o arrasta vagarosamente em sua direção
ela irá abraçá-lo
depois, quando estiver satisfeita,
ela o matará
ainda no mesmo abraço
e lhe sugará todo o sangue.

escapei de minha viúva negra
porque ela possuía machos demais
em sua rede
e enquanto ela abraçava um deles
e depois o outro e então ainda
outro
me libertei
retornei
ao lugar onde estava anteriormente.

ela sentirá minha falta -
não de meu amor
mas do gosto do meu sangue,
mas ela é boa, ela encontrará outro
sangue;
ela é tão boa que quase sinto falta de minha morte,
mas não o suficiente;
escapei. eu vejo as outras
teias.

garotas de meia calça

estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola se foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada -
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são maçantes

as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.

circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.